Friday, December 01, 2006

Chegaram os Aliens de Inglaterra_by Fillipe Bastos

Os Muse não são deste planeta. São duma rota de gravidade bastante distante aliás. Distante o suficiente para atrair mas perto o suficiente para se compreender por trechos. No dia 26 de Outubro entrei na reconfigurada praça de touros do campo pequeno para ver o primeiro concerto deste “novo” espaço. A banda de pontapé de saída foi bem escolhida para voltar a dar a relevância de outros tempos à mítica sala. Infelizmente perdi a primeira banda, que estava mesmo a arrancar os ultimos aplausos de uma plateia já bem composta, quando entrei. A minha primeira sensação foi achar o palco muito pequeno, mas, depressa me apercebi que ele estava só exposto a metade, já que, por detrás da outra metade (não visível) estavam - tapados por uma cortina preta - as luzes e o material estravangante dos Muse já montado. Houve uma longa espera. Enquanto esperava tentava perceber com que espectáculo me instante. Olhei para as racks montadas na periferia do palco. Caixas e caixas de amplificadores, processadores de efeitos e mais mil truques que não adivinharia. Ouvi dizer que tinham vindo 14 camiões para transportar o espectáculo destes trés mavericks. Passado demasiado tempo o palco abriu, as luzes encadearam a plateia a apareceu Matthew Bellamy, glamoroso como sempre, a saudar o público e a palpar as primeiras notas no seu piano branco – acompanhado de um amplificador do mesmo branco! Arrancada imediata para um tema do álbum novo Black holes and revelations, “Assasin” logo seguido de “Supermassive Black hole” com o seu riff avassalador de guitarra a pôr os fãs dedicados aos pulos. Mas os Muse tinham que conseguir mais e logo o fizeram ao tocar “Plug in Baby”, tema mais conhecido, do segundo álbum, Origin of Symmetry. De seguida, de intervalos de música à música, a solos alusivamente espontâneos, o mentor dos Muse sacou o coelho da cartola e demonstrou ter domínio completo tanto da sua guitarra como do seu lindíssimo piano, no qual debitava arpeijos fantasmagóricos. Mas, nem tudo era puro talento. Infelizmente a banda apresentou-se com alguns truques: samples de piano, guitarra e vozes que disparavam a meio das músicas. Até sons de corneta e trompete foram adicionados. Quer se queira quer não, essas coisas retiram sempre alguma mística ao espectáculo, mesmo que se veja, como foi o caso, que há mais um músico em palco para fazer disparar os respectivos samples. No que diz respeito a Chris Wolstenholme, apresentou-se com a pertinência habitual a tocar, tal como Dominic Howard apesar de este último sofrer de alguma falta de balanço – provavelmente devido ao metrónomo usado durante o espectáculo para possiblitar o lançamento dos samples – dinâmica –devido à natureza viceral da música que os Muse costumam tocar- e criatividade – simplesmente por não a ter. Howard é um baterista consistente, ponto. Quem brilha aqui, tal como um Eric Clapton em Cream, um Kurt Cobain em Nirvana, um Sting em Police ou um Billy Joel Armstrong em Green Day é de facto Bellamy. É o génio do mundo Muse. Um mundo que conseguiu criar, baseado em estranhas progressões harmónicas, batidas tribais e riffs incessantemente perfuradores. Parece ser ele o mestre desta obra embora deva confessar que contínuo a não conseguir aceitar os Muse como uma banda eximiamente independente e original. Sempre que oiço Bellamy a cantar lembro-me de Thom Yorke, embora vários críticos também o gostem de o comparar a Freddie Mercury e a Jeff Buckey. Acho que não tem nada a ver. Bellamy passou de certeza horas a ouvir Yorke e a comparação a Radiohead é capaz de ser a mais fatal de todas. Simplesmente por os Muse serem a banda que são e terem as pretensões experimentais e underground que têm. Pessoalmente, comparo Radiohead a Muse como comparo Mozart a Salieri, respectivamente, mas já ninguém se lembra de Radiohead e está na altura de passar para outra, e é isso que os Muse estão a conseguir fazer neste mundo de Showbiz. De referir o fantástico jogo de luzes que acompanhou todo o show. Howard esteve o concerto todo dentro de uma espécie de bola gigante iluminada que ia mudando de cores, subindo e descendo, incobrindo-o e descobrindo-o consoante o ambiente de cada música. O ecrã por detrás do palco passava também imagens constantes de gráficos, cores e até de robôs a dançarem em perfeito sincronismo com a música. Houveram ainda filmagens em directo, nomeadamente quando tocaram “Time is Running out”- que pôs todo o campo pequeno a cantar – e filmagens das mãos de Bellamy quando este fazia os seus arpeijos de inspiração clássica. Já perto do fim tocaram o último single, “Starlight”, ao qual o público respondeu batendo palmas em uníssuno com a batida da música. Foi um dos momentos altos da noite. Seguiu-se outro tema do último álbum, “Knights of Cydonia”, que também levou ao rubro os presentes. Bellamy esgalhava-se e “matava-se” todo ao gritar as frases “You and I must fight for our rights, you and I must fight to survive” que passavam simultaneamente escritas no ecrã por detrás deles. Os Muse estão de parabéns por agarrarem o lugar que lhes foi cedido como “os gajos estranhos, artistas, obscuros de Inglaterra” porque não o conseguiram por sorte, mas porque o cumprem e defendem fantasticamente, sobretudo ao vivo. Resta só perceber se o mediatismo do momento deixará marcas para o futuro.